Revista Mentores - Projeto Jovem Empresário

Pai que perdeu a filha para a infecção hospitalar desenvolve sistema
que identifica sinais de risco e se dedica a espalhar
a tecnologia pelo mundo.

Em 20 minutos de entrevista, o analista de sistemas Jacson Fressatto, falou por duas ou três vezes de sua possível obsessão. Sim, ele é um obstinado, ainda bem! Esse traço de sua personalidade o fez desenvolver o Robô Laura, um software que vem ajudando a salvar muitas vidas, e vai colaborar com seu objetivo de evitar 1 bilhão de mortes no mundo até 2050.

Em 2010 o analista de sistemas Jacson era um jovem adulto como outros tantos, trabalhava, estava construindo um bom patrimônio e seria pai pela segunda vez. O nascimento de Laura mudaria radicalmente sua vida, ela faleceu de sepse – também conhecida como infecção generalizada – com 18 dias. Ele queria saber por quê, “Não conseguia aceitar que algo que parecia ser tão comum ou tão conhecido tivesse passado despercebido pelos profissionais. Fiquei obcecado para descobrir quem tinha errado. ”

O pai passou nove meses trabalhando como voluntário em hospitais para entender como funciona o fluxo de informações dentro das instituições, “Descobri que não existia culpado, o que existia era um grupo de vítimas que, assim como os pais, familiares ou como os próprios pacientes, os médicos precisavam de recursos que acelerassem o processo de decisão.

As informações existem há muito tempo, elas estão em sistemas separados: nos exames, na farmácia, na coleta de dados vitais...

O que acontece é que você precisa reunir essas informações para que um especialista tome uma decisão”, afirma.

Paralelamente, o analista de sistemas mergulhou no estudo científico da sepse. “Quem não é da área médica fica de mãos atadas, eu simplesmente não aceitei ficar de mãos atadas achei que existia oportunidade de trabalhar com tecnologia e comecei a investigar. ”

Foram dois anos de pesquisas e mais quatro para desenvolver um programa de computador que analisa os dados dos pacientes e indica o risco da infecção. “A Laura não identifica a sepse, ela trabalha com os indicadores que sugerem que a pessoa está com sepse e isso provoca todo um movimento para atender melhor esse paciente”, explica.

Tecnologia
Cognitiva

O robô trabalha com um conceito chamado machine learn – ou tecnologia cognitiva, ou seja: ele tem a capacidade de aprender “Uma série de algoritmos classificam em tempo real o risco de o paciente estar ou não estar com sepse”. O programa atua de forma autônoma e sempre que encontra sinais de alerta avisa aos profissionais de saúde, por meio de monitores instalados em postos de enfermagem, se ninguém atender ao chamado envia mensagens aos celulares dos profissionais.

Conforme dados do Instituto Latino Americano de Sepse (ILAS), a expectativa de ocorrência da doença no Brasil vai de 400 a 500 mil casos por ano com mortalidade de 55% desses pacientes na UTI, o que significam de 200 a 240 mil mortes anuais.

A meta do projeto Sonho de Laura é implantar o sistema em todos os hospitais filantrópicos do Brasil, gratuitamente ou a preço de custo, reduzindo a mortalidade pela doença em 5%, o que evitará 12 mil óbitos anuais “Vamos chegar a todos com ou sem ajuda, só que se não tivermos ajuda, demora um pouco mais. ”

Para bancar o projeto, Fressatto vendeu casa, carro e colocou dinheiro do bolso. Hoje três sócios injetam capital já que não há objetivo comercial, a implantação do sistema custa R$ 42 mil para cinco anos de funcionamento.

RESULTADOS

O Robô Laura foi implantado no Hospital Nossa Senhora das Graças em Curitiba, em junho de 2016. Até o momento foi ativado em dois postos de internação que atendem pacientes internados na oncologia e cirúrgicos. “A Laura passou a fazer parte do time assistencial dessas duas unidades, ela trouxe agilidade no atendimento e potencializou a assertividade dos profissionais em uma velocidade nunca experimentada no mundo, ela proporciona aos profissionais uma leitura sistêmica de dados dos pacientes gerando um conhecimento mais apurado para a tomada de decisão”, afirma a infectologista Viviane Dias, chefe do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do hospital.

Agora o sistema está sendo implantado no Pequeno Príncipe e há vários outros hospitais interessados em diversos estados do país, o que é ótimo, já que a Organização Mundial da Saúde prevê 10 milhões de mortes anuais por causa de bactérias multirresistentes até 2050. O Laura Bot – nome internacional do programa – pode salvar cerca de 1 bilhão de vidas até lá.

Espalhar a tecnologia pelo mundo é um desafio gigantesco, para o qual Fressatto sabe que precisará de ajuda. Alguém aí duvida desse obstinado?

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